"É preciso a coragem de ser um caos para gerar uma estrela dançarina." - F. Nietzche.
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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

HORRORSHOW!

Era noite de inverno, lá estava Alex e seus druguis no Lactobar Korova. Tomavam seus shots de Moloko Vellocet, bebida com base em leite-e-com-tudo-e-mais-alguma-coisa. O tipo de drink que te deixa pronto para um vinte-contra-um.

Estavam lá, o próprio Alex, Georgie, Pete e Tosko. Tosko porque, como podem imaginar, ele era muito tosco! Estavam sentados num canto do bar, observando algumas cocotas ali, outras cá, até que Alex solta sua clássica exclamação:

_Então, o que é que vai ser, hein?

Essa, é uma boa pergunta, Alex. Inglaterra futurista. Um governo controlador, uma juventude decadente e criminosa. Ninguém mais anda em segurança nas ruas do próprio bairro. Livros são espécimes raros, extremamente arcaicos. Ó, pobre Alex! Teria você vivido mais para conhecer um mundo diferente ao qual nasceu e viveu sua sentida história?

_Ora, ora essa! Leste o meu livro, meu bom rapaz?

Não apenas li, mas me apaixonei pela história! Tanto do livro quanto do filme! Me tornei um entusiasta e...

_Ó, não, não! Não me fale do filme!

Por quê? O que tem de tão ruim com o filme?

_Aquele gordo starre do Kubrick estragou a minha história!

Alex, eu pensei que tínhamos concordado em não utilizar o vocabulário Nadsat durante a...

_Eu sei, eu sei, eu sei, eu SEI! Ah, ó, não precisa me lembrar todas as vezes! Deixe-me te explicar alguma coisa, rapaz. Eu não consigo regular toda slovo que sai da minha boca, assim, como vocês engomadinhos fazem.

Eu não sou engomadinho, mas até entendo o que quer dizer. Pressuponho que eu mesmo falo muitas gírias no meu dia-a-dia sem perceber.
Mas então, falávamos sobre o livro, e a sua história. Eu sei que nem todos aqui assistiram ao filme, ou leram ao livro. Mas fiquei curioso para entender por que você não gostou do filme.

_Aquele diretor, um excêntrico, um maltchik sem vergonha, se sentiu no direito de deturpar vários detalhes da trama. Primeiro, me representou consideravelmente mais velho, e aumentou também a ideia de várias das devotchkas com as quais eu fiz alguns entra-sai-entra-sai bem gostosos. Sem contar com aquela música maldita em um dos meus momentos mais memoráveis, prestes a meter dentro da esposa daquele escritor super starre.

Eu ainda penso que seja uma questão de livre interpretação. Mas enfim, conte-nos um pouco mais da sua história. Você era um rapaz jovem, 14 anos, líder de uma gangue de adolescentes que saia à noite caçando, digamos, aventuras?

_Você fala de um jeito engraçado! - risadas. - Enfim, a gente saia ai, zuando, você sabe, arrumando uma bitva ali e cá, perseguindo algumas devotchkas e prestando caridade a algumas esticas bem starres no pub.

Um jovem noturno, talvez não tão diferente dos nossos adolescentes, embora o seu conceito de divertimento seja um pouco fora do padrão de uma sociedade, digamos, como a que eu vivo.

_Você pensa mesmo isso? Será? Estupros e casos de violência estão cada vez mais recorrentes, meu bom drugui. E não ocorrem apenas na madrugada ou nas ruas. Nas escolas, nos hospitais, dentro das familias! Meus pais me educaram muito bem, sabe? Disso eu não posso me queixar. Me deram tudo do bom. Eu poderia ter sido um bom aluno se eu quisesse, ganharia muito tia penúcia com um bom emprego.

Mas você preferiu tomar outros rumos...

_Ah, não coloque assim. Faz parecer que eu escolhi "o mal caminho". Eu assumo que eu frequentava sim, a outra loja, mas isso não me faz melhor ou pior que ninguém concorda? Depois do que fizeram comigo quando eu sai da prisão? Ó, aquilo não é coisa que "gente direita" faz.

Eu concordo contigo, Alex. Eu acho que a sua história é a maior prova de que não existe tal como os "cidadãos de bem". Essa classe de pessoas fervorosamente super virtuosas, incapazes de fazer qualquer mal, não existem. E foi esse um dos pontos que o próprio Kubrick apontou em uma de suas entrevistas, sobre como a sua personagem representaria o inconsciente humano, intacto, o ID de Freud entre outras teorias como...

_Eu já disse para não govoretar sobre aquele puto outra vez!

Sinceramente? Eu gostei do filme também. Eu não o percebo como uma adaptação, mas uma re-leitura. Uma forma diferente de enxergar a história. Mas enfim, acho melhor concluirmos, não quero fazer muitos spoiler sobre a sua história. Melhor que assistam o filme, ou leiam o livro para descobrirem o final da história que o filme não mostra.

_Fazer muito o que? Spoiler? Oque é isso?

Ah! Significa contar o final de uma história e estragar o prazer que a pessoa poderia ter descobrindo o que acontece por conta própria. Enfim, eu pretendo fazer outras resenhas de livros e filmes também, e seguir essa conduta. Contar a história por alto, apenas o suficiente para chamar a atenção das pessoas.

_Vá ocupar seu tempo com alguma coisa decente! Você precisa de um pouco mais de pol, sair mais de casa, vagar pela madrugada (melhor se for acompanhado). Só deixo um último alerta, para você e para os leitores também. Cuidado com os falsos amigos! Ó, eu prefiro um inimigo do que um falso amigo. Pois estes, podem te ferrar muito pior do que imagina!

Certo, certo. Acho que só ficou faltando uma última pergunta, mas essa, eu deixo por sua conta:
_Então, o que é que vai ser, hein?

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Você está Detido!

Viagem no tempo. Peguem seus relógios mentais e ajustem eles para o dia em que nasceram. Eu vos pergunto, nasceram livres? Nasceram homens e mulheres? Nasceram com uma etiqueta que incluíssem seus nomes, endereços, número de RG, CPF, conta bancária e matrícula escolar?
É tão raro ver as pessoas questionando hoje em dia, as premissas mais básicas sobre simplesmente TUDO! Existem aqueles que questionam a religião e já se sentem os rebeldes que encontraram a saída da caverna. Mas quantas vezes já pararam para questionar o mito da cidadania?

Você nasce e ninguém te pergunta o que você quer. Ninguém questiona se você deseja ou não ir para a escola, ou fazer parte da sociedade. Vão logo te vestindo em um uniforme, e te empurrando para dentro de um quartel general, onde você é obrigado a sentar horas a fio em uma carteira gelada, enfileirada com outras carteiras, com outras crianças nelas, todas, na mesma situação atordoante que a sua.

Te resumem a alguns números. Se você já nem teve o direito de escolher o seu nome, também não vai ter direito a escolher o seu número de matrícula, ou o seu número de RG. Você já nasceu imerso nesse sistema, e pouco tem escolha de questionar. Tudo parece muito lógico, muito correto e coerente. Mas a loucura tem raízes tão profundas que fica difícil enxergar qualquer luz do fim do abismo.
Você cresce, recebe uma carteira de trabalho e, também, a obrigação de se apresentar uma vez a cada dois anos para participar do fantástico processo democrático (com risco de ter seus direitos cerceados caso não o faça). Está é muito mais para processo burocrático, por meio de onde você escolhe um entre alguns personagens de ficção pública para representar as suas vontades e interesses na máquina administrativa da sociedade - o governo.

O que nos prende ao chão? O que nos impede de transcender a Ordem estática das relações de poder e submissão? Tudo não passa de uma ficção, mas ainda assim, continuarmos interpretando os mesmos papeis pré-programados, sem hesitar, sem questionar. O Processo - Franz Kafka, também é uma obra de ficção, mas transmite muito bem a realidade, ainda que de uma forma pitoresca e perturbadora.

Eu devo concordar que foi uma das leituras mais difíceis e complicadas com a qual eu tive de lidar. A linguagem arcaica, os rodeios e rodeios nos diálogos, tudo isso cria uma atmosfera intragável, mas tudo se encaixa genialmente no contexto da obra. Bons livros, são aqueles que te forçam atravessar a experiência do protagonista. Se o processo ao qual Josef K. é submetido, o sufoca, o entedia e perturba, nada mais brilhante do que obrigar o leitor a sentir semelhante sensação com a leitura!

Certa manhã, Josef K. acorda e percebe que foi detido. Dois guardas vigiam sua porta do lado de fora. Ele não pode ir trabalhar, não pode sair do quarto. Ele deseja saber por que, mas ninguém o informa. Deseja conhecer a acusação que fizeram contra ele, mas ninguém tem permissão para lhe contar. Mais provavelmente por que, ninguém conhece a natureza da acusação.

Ele consegue prosseguir com a sua vida, em ritmo praticamente normal, com exceção de ter o processo à sombra de cada passada, de cada encontro e de cada caminho que ele toma. É chamado para prestar depoimentos, chega a procurar um advogado! Mas nada pode ajuda-lo a compreender melhor a natureza do processo ao qual está submetido, e muito menos pode compreender melhor a natureza da justiça que o julga.

Um sistema velado, uma máquina gigantesca, com engrenagens e mecanismos que extrapolam a visão. Nada pode capturar a magnitude do sistema em apenas uma frame. Não é assim que vivemos, quando convivemos em sociedade civil?

Josef K. não tem oportunidade ou a chance de escolher se ele irá ou não se submeter ao processo. Sem razão aparente, ele está em dívida. Sem uma motivação plausível, ele se vê forçado a se dedicar ao que, a princípio, ele considerou ser uma ameaça risível. Não estamos, nós mesmos, submetidos a mecanismos aos quais não se justifica? Por que temos que pagar impostos? Por que o estado tem o direito de meter a mão em nossos bolsos, sem nem mesmo questionar se concordamos com isso? Sob risco de sermos detidos e intimados caso resistirmos a ceder nossas reservas, somos furtados todos os dias! (nos bancos, no comércio, e até pelo ar que respiramos nós pagamos um preço!)

Somos todos prisioneiros. Estamos todos, como Josef, com um processo sob nossas costas, acusados e endividados sem compreender por que ou como. Temos de trabalhar para nos sustentar, sem nunca questionar se não existe outra forma de sobrevivência. O estado obriga a frequentarmos as escolas, mas não se compromete em fazer um controle eficaz da qualidade do sistema escolar. (Se você pensava que existia qualquer controle de qualidade rigoroso na educação brasileira, sinto muito em frustar suas ilusões).

Eu não pretendo especificar detalhes da história do livro, mas me queixo em fazer uma advertência, em prol de evitar interpretações ingênuas sobre o livro. É notável como nesse romance kafkaniano a mulher é uma figura que se apresenta, majoritariamente, como uma prostituta. E eu não disse no sentido de profissionais do sexo a quem o protagonista procura, mas me refiro a mulheres que, na história, têm íntimo contato com os oficiais da justiça e se oferecem (sensualmente) ao protagonista. Assim como se oferecem para ajuda-lo a exercer influência sobre os juízes para favorece-lo no processo.

Essa representatividade, poderia ser imaginada como machista, ou como algo que intenta em atingir a imagem da mulher. Mas não sejam ingênuos! Franz Kafka vivia em um período em que a sociedade era extremamente machista, portanto não seria muito mais do que natural essa visão. Tanto por que, ao que eu percebi, a intenção era usar a imagem da mulher como uma representação da promiscuidade e corrupção do próprio sistema. Sim! No livro, a mulher representa a corrupção do estado, feita para atender aos interesses dos poderosos. Eu poderia entregar mais alguns detalhes do desfecho do livro, mas eu vou deixar para aqueles que se sentiram estimulados à leitura, buscarem perceber a quem as mulheres do livro realmente querem favorecer.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

INGSOC - SOMA

Distopias a parte, por mais que existam resenhas e resenhas sobre esses livros que pretendo citar hoje, eu me sinto na obrigação de dar o meu parecer sobre essas duas literaturas de revirar o cuco. Mas despreocupem-se, mesmo para os que não leram ainda esses livros, eu não faço aqui qualquer spoiller sobre a história narrada nos livros, apenas descrevo as atmosferas e ambiente dos mesmos.

Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força

O ano era 2009, intervalo das aulas do pré-vestibular que eu atendia em Vitória, na Reta da Penha. Meus amigos já tinham descido para o hall do prédio, enquanto eu fiquei para trás, os olhos grudados nas ultimas páginas de 1984- George Orwell. Quando eu finalmente terminei de ler, eu já não me lembrava mais de quem eu era, o que eu estava fazendo, onde eu estava... Por Deus! Eu não sabia nem o que eu queria lanchar!

Eu olhava para os lados, olhava para os outros alunos, não conseguia pensar em nada que não fosse desespero, insanidade e desesperança. Eu fui arrebatado de uma realidade pútrida, fétida, que era essa dimensão paralela do livro, mas ao retornar daquele mundo, eu passei a enxergar a face do Grande Irmão por toda parte.

Eu consigo citar 3 grandes distopias do último século:
Laranja Mecânica - Anthony Burgess
1984 - George Orwell
Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley

Dos três, em termos de qualidade literária, eu classifico do melhor ao pior, exatamente na ordem do primeiro ao terceiro. Contudo, em termos de relevância, considero os dois últimos os mais significativos. Justamente por eles representarem realidades aparentemente opostas. (ainda farei uma resenha de Laranja Mecânica, tanto livro quanto filme)

O universo de Admirável Mundo Novo, representa um futuro onde as pessoas são programadas desde a sua fase de feto, e recebem constante condicionamento social desde o nascimento até a morte. Literalmente uma constante lavagem cerebral. Uma sociedade dividida em castas (Alfa, Beta, Gama, Omega...), onde cada casta atende a uma camada específica da divisão do trabalho. São condicionados desde o berço a aceitarem e apreciarem sua condição social como a mais cabível. Os Betas, gostam de serem Betas, por não serem tão estúpidos como os Gamas, mas também não serem tão cobrados quanto os Alfas. E com essa lógica, todos são impelidos a adorarem e cultuarem a própria posição ante a sociedade.

A fecundidade é totalmente controlada pelo Estado, já que todos os indivíduos nascem de dentro de encubadoras. Os ovários e espermas são doados ao estado, que direciona o fluxo e designa a função para cada indivíduo desde o berço. A sociedade inteira funciona como uma enorme linha de montagem, auto-suficiente, e aonde tudo atende a um propósito específico. Como o nascimento é propriedade do Estado, não se pode constituir família. É dado tal que as pessoas são incentivadas a serem sexualmente promíscuas.

Altamente tecnológica, a sociedade do Mundo Novo dota de uma exacerbada industria do lazer. Sem contar com a droga chamada SOMA - do inglês, PLUS - que as pessoas tomam como forma de extraviar os efeitos do estresse cotidiano. Seria uma espécie de SUPER CAPITALISMO, operando em perfeita harmonia e sincronia. As pessoas trabalham para conseguir renda, e sem questionar, gastam todo o dinheiro com lazeres caros e fúteis. Não se permite desfrutar uma tarde ensolarada deitado no topo de um prédio sem gastar dinheiro, nem mesmo na companhia de um bom amigo, conversando descompromissadamente. Afinal, tempo livre, é para ser gasto por meio do dinheiro.

Por outro lado, 1984 nos transporta para uma realidade de um Estado totalitário, controlador, com poderes praticamente absolutistas. A sociedade é dividida entre os que fazem parte da maquina do Governo (Partido) e os civis comuns, a Prole (ou proletariado).

Em relação ao Partido, é ainda dividido em dois seguimentos, o Partido Externo e o Partido Interno. O Partido Externo diz respeito aos trabalhadores de baixa patente, que pegam no trabalho mais pesado dentro do corpo administrativo. Os integrantes do Partido Interno, além de várias vantagens e benefícios, pertencem à alta patente e participam das decisões mais internas e secretas.

O Governo é dividido em quatro ministérios. Todos, cujos denominações descrevem exatamente o oposto de suas funções:

Ministério da Paz (promove a Guerra)
Ministério da Verdade (manipula as informações)
Ministério da Fatura (responsável pelo racionamento dos recursos)
Ministério do Amor (responsável por fazer carinho com ferro e eletrochoque nos civis indisciplinados)

A constante antítese resume a filosofia dessa sociedade. É o dito duplipensar (nos termos na novilingua). Duplipensar significa aceitar duas ideias contrárias, simultaneamente, e alternar entre uma e outra à medida do necessário. Portanto, se em um momento é necessário aceitar que a morte é um prejuízo inestimável, se for para atender à vontades do Grande Irmão (líder onipresente/onisciente), tolera-se a morte como um mal não apenas necessário, mas desejável.

Monitorados constantemente pelas teletelas (televisões que emitem imagens ao mesmo tempo que captam imagens - hello, X BOX ONE!), os cidadãos devem mostrar constantemente seu ânimo e dedicação ao Grande Irmão, seu líder supremo, e se mostrarem convictamente alinhados com a ideologia do Partido. Qualquer desvio é intolerável, e até mesmo seus pensamentos são monitorados. Não por meio de eletrodos na cabeça das pessoas, mas por meio de polícias especializadas em identificar ideocriminosos. Homens capazes de observar as mínimas reações ou indícios de desvio moral, mesmo que esses desvios só ocorram no íntimo de cada indivíduo. As próprias crianças são treinadas para atuarem como mega espiãs, incentivadas a denunciarem até mesmo os próprios pais, caso identifiquem nesses traços de traição contra o GI.
Eu poderia passar horas escrevendo e descrevendo minuciosamente o ambiente de cada um desses livros, mas nada supera a leitura em si. O meu objetivo aqui não é esse. Mas formar um paralelo entre as realidades dos livros e o mundo que vivemos hoje. Afinal, quem estava "certo" sobre o futuro? Orwell ou Huxley?

Eu diria que os dois, e ao mesmo tempo nenhum. Enxergo traços das duas distopias na nossa realidade. Huxley acreditava que nossos prazeres iriam nos aprisionar, enquanto Orwell pensou que tudo o que odiamos iria nos submeter. Hoje, vivemos as duas realidades em uma só.

Televisão, facebook, twitter, vídeos de gatinhos, sites de humor barato, 9GAG, seriados de televisão, livros best-sellers, toda essa parafernália nos condiciona e nos diverge a atenção que poderia ser coordenada para diversas outras atividades. Conheço pessoas que não têm outra definição de lazer que não seja assistir filmes ou baixar um novo seriado. Assistem temporadas inteiras em questão de dois ou três dias. E quando acabam, não tem outra opção senão continuar buscando e procurando um outro anime, ou outro mangá, ou outro filme ou outro, outro, outro meio de preencher o tempo que elas não suportam passar consigo mesmas. Algo que lhes sufoque os pensamentos, pois, se a televisão já cumpria o papel de fazer o cérebro parar de funcionar, pular para internet e continuar desligando involuntariamente o cérebro, não faz tanta diferença. (E esse foi um puxão de orelha bem direto a todos os que se perceberem nesse perfil.)

Vivemos sim, em uma sociedade pautada pelo consumo, onde caso as pessoas não têm o que fazer, se sentem entediadas e angustiadas. Incapazes de apreciarem o silêncio, ou a quietude de uma tarde tranquila, sentados em um banco de praça, sozinhos ou acompanhados. Não apreciam os prazeres simples. Dependem de seus smartphones, Ipads, ou qualquer outro aparelho para se distraírem. Tudo quanto o necessário e possível para evitarem terem de conviver com elas mesmas. Portanto, vivemos sim, em uma sociedade direcionada e dirigida pelo consumo do prazer como fonte de felicidade.
A maior parte das pessoas se sacrificariam para proteger os sistema que as aprisionam.
Por outro lado, vivemos também na sociedade do controle e da larga manipulação de informações. A mídia condiciona as pessoas ao medo. Os noticiários só falam de morte, violência e tragédia, de maneira que as pessoas consideram aceitável admitir leis cada vez mais autoritárias e que restringem a liberdade delas. Se você sai às ruas para protestar, e os policias te agridem deliberadamente, a mentalidade privativa e protecionista aplaude essa violência de pé. É claro, eles preferem o controle rígido, pois estão notoriamente dispostos a viverem em gaiolas, já que foram convencidos de que é a única maneira de viverem protegidos. Aplica-se aqui, o duplipensar constante. Pois pela moralidade (seja religiosa, seja legislativa), qualquer tipo de violência, agressão, ou assassinato, é CRIME e absolutamente repugnante. Mas admite-se que o Estado seja violento, agressivo e assassino para coibir essas práticas? Ah, sim. De um lado violência é intolerável, mas se for para deter a violência, combate-se fogo com fogo? É a lavagem cerebral promovida não só pela mídia de massa, mas por monstruosos formadores de desopiniões (um salve ao Olavo de Caralho, Reinaldo de Azedo e Raquel Shehavenohead).

Conformismo, medo de mudança e sensação de enorme impotência. Essas são as maiores violências morais praticadas pelo Estado, de maneira a coibir as pessoas a aceitarem o sistema. Pois é assim que as coisas são, e não será VOCÊ que conseguirá mudar as regras do jogo. Nós vivemos no CAPITALISMO, aceite esse fato (benzinho) e saia do seu sonho utópico de viver em um mundo melhor.
Uma vez que você confronta a verdade, não há mais volta.
Sobre esse tópico, eu ainda pretendo escrever um texto sobre a forma como eu enxergo para sairmos da Matrix. Eu mesmo estou trilhando o caminho que elaborei, e ele tem se mostrado muito eficiente, mas é tema para outra prosa.

Esses são alguns dos indícios de como essas duas incríveis distopias do século XX mostram sua influência sobre a nossa realidade do século XXI. Se isso não foi o suficiente necessário para te incentivarem a tomarem vergonha na cara e lerem os livros, de boa, eu não sei mais como ajudar!